
Em que momento a natureza passou a ser tratada como algo descartável?
A pergunta que estrutura a campanha Natureza Descartável não surge como frase pronta nem como resposta imediata. Ela nasce de um processo criativo que se recusa a ser apenas execução. Reconhecida como a melhor campanha do ano de 2025 em Alagoas, premiada no evento Guerreiros da Criação em 8 categorias, a iniciativa parte justamente dessa pergunta simples e incômoda demais para ser ignorada.
A campanha é assinada por Thiago Silvestre, publicitário e diretor de arte que atua com branding, comunicação e processos criativos a partir da leitura de território, cultura e responsabilidade social. É desse olhar atento ao cotidiano, aos hábitos e às contradições do espaço urbano que o projeto ganha forma.
“O ponto de partida foi o briefing do Praia Limpa, ação pensada para o Dia Mundial pela Limpeza de Praias, Rios e Mares. A proposta era objetiva: mobilizar pessoas, engajar funcionários e comunidade, levar informação de forma leve e positiva e realizar uma ação voluntária de limpeza em uma praia de Maceió”, afirma Thiago.
À primeira leitura, o caminho parecia resolvido e confortável. Produzir materiais educativos, camisetas, panfletos e ações informativas para cumprir o papel social esperado. Tudo funcional, alinhado e eficiente dentro do que o briefing pedia. Mas, ao ler o documento com atenção, o processo criativo começou a pedir outro passo, sugerindo algo além da execução mecânica.
“Quando a gente lê um briefing com cuidado, entende que ele nunca fala só do que está escrito. Um briefing, quando é lido com profundidade, revela muito mais sobre comportamento, cultura e território do que sobre peças ou formatos. Ele fala de hábitos, escolhas e responsabilidades que vão muito além de uma ação pontual”, destaca o publicitário.
Por trás de palavras como engajamento, boas práticas e mudança de comportamento, havia uma questão maior. O briefing falava de hábitos cotidianos, responsabilidade compartilhada e da forma como a sociedade lida com o próprio descarte, revelando lacunas que não se resolvem apenas com instruções pontuais.
“Levar uma sacola para a praia, separar o lixo, evitar o plástico descartável são gestos conhecidos, mas ainda tratados como opcionais. Me interessava entender por que práticas tão básicas seguem sendo vistas como escolha individual, e não responsabilidade coletiva da sociedade como um todo. O Praia Limpa cumpre seu papel educativo, mas o incômodo não se esgota nela”, aponta Thiago.
Não se tratava apenas de limpar uma praia em um dia específico. Quando ações de limpeza se tornam recorrentes, mostram hábitos estruturais que começam muito antes da areia, e o incômodo se manifesta em quem observa o litoral alagoano, dividido entre o discurso do paraíso e os alertas sobre impactos ambientais.
“No verão, a imagem do paraíso costuma falar mais alto, mas os dados ambientais permanecem, expondo a contradição entre o que se vende do litoral e sua realidade. No meu trajeto diário pela Rota do Mar, a paisagem muda: o nome permanece, mas o mar vai ficando menos visível, indicando transformações que afetam a biodiversidade, a circulação da água e a relação da cidade com o litoral”, observa o publicitário.
As discussões sobre balneabilidade, qualidade da água e impacto ambiental atravessam diferentes trechos do litoral, revelando pressões urbanas, hábitos naturalizados e a dificuldade de transformar informação em prática cotidiana. É nesse contexto que o processo criativo deixa de ser apenas execução e passa a ser escolha.
“A pergunta deixou de ser como orientar hábitos em um dia específico e passou a ser como provocar reflexão de forma contínua, sem aliviar o incômodo. Dessa virada nasceu Natureza Descartável, não como substituição do Praia Limpa, mas como aprofundamento do mesmo pensamento: se a ação convidava ao cuidado prático, a campanha agora convida ao questionamento simbólico”, ressalta Thiago.
A lógica do descartável se naturalizou demais: plástico, embalagem, água e território são tratados como descartáveis, e nomear isso torna evidente que ninguém fica fora do problema. Ao desenvolver a campanha para a BRK Ambiental, esse posicionamento integrou o processo de comunicação, mostrando que saneamento é cultura, hábito e escolha diária.
“Mais do que o material final, o que permanece é o processo: a decisão de não seguir apenas pelo caminho confortável. Talvez o papel mais honesto da comunicação hoje seja esse: não apenas orientar comportamentos, mas provocar o questionamento que vem antes deles”, finaliza o publicitário.