A nova fome: entre métricas, emoções e o futuro do wellness

Daniela Rodrigues, nutricionista, explica como a comida deixou de ser apenas nutrição e passou a representar emoções, identidade e estilo de vida.
Daniela é nutricionista e aborda a alimentação de forma mais consciente e integrada, refletindo sobre a relação entre saúde, comportamento, tecnologia, prazer e bem-estar – Foto: Lucas Cordeiro.

Você já reparou em quantas coisas a gente consegue medir hoje? Qualidade do sono, quanto se movimentou, como está o nível de estresse e resiliência e até em que fase do ciclo menstrual está. Na alimentação, não é diferente: calorias, proteínas, tabela nutricional “limpa”, açúcar, versões “zero” e “sem”.

Nunca tivemos tantos dados sobre nós mesmos. Mas, no meio de tantas métricas, talvez exista uma pergunta que mereça mais espaço. Ainda sabemos perceber o que o nosso corpo está dizendo? Essa pergunta também passa pela alimentação. Afinal, comer não é uma experiência puramente fisiológica. A comida está nas comemorações, nas recompensas e também pode aparecer como uma tentativa de alívio momentâneo.

Isso não significa falta de força de vontade. O cérebro pode recorrer à comida como uma forma de regular emoções. O ponto de atenção está quando ela se torna a principal, ou a única, estratégia para lidar com aquilo que sentimos.

Essa relação pode ser ainda mais delicada entre adolescentes e mulheres jovens, que convivem diariamente com comparação corporal, pressão estética e mensagens contraditórias sobre alimentação: “coma para se sentir melhor”, mas “compense depois”.

Mas existem outras formas de buscar prazer, acolhimento e conexão. Aprender algo novo, criar, manter boas relações, descobrir sabores, também podem fazer parte desse repertório. É nesse ponto que o wellness começa a ficar mais interessante. Ele deixa de ser apenas sobre aquilo que fazemos para cuidar da saúde e passa a envolver também a maneira como escolhemos viver.

A alimentação já comunica identidade, pertencimento e estilo de vida. Isso aparece na expansão de alimentos e bebidas com apelo saudável, versões sem álcool, energéticos sem açúcar, produtos enriquecidos com proteína e inovações como a água proteica, apresentada recentemente na Naturaltech.

Ao mesmo tempo, a tecnologia passou a acompanhar cada vez mais aspectos da nossa rotina. Relógios inteligentes, anéis e outros dispositivos monitoram sono, estresse, recuperação e atividade física. Mas, diante de tanta tecnologia, existe uma questão que me preocupa enquanto nutricionista. Aos poucos, podemos estar deixando de lado a nossa própria percepção.

Hoje, algumas pessoas já não sabem dizer se tiveram uma boa noite de sono sem consultar o relógio, se estão realmente estressadas sem olhar uma métrica ou até se estão saciadas depois de uma refeição sem depender de algum indicador externo. A tecnologia pode ser uma excelente ferramenta, mas não deveria substituir a capacidade de perceber o próprio corpo.

E talvez seja justamente por isso que propostas que nos tiram do automático façam tanto sentido. O consumidor de hoje parece não querer mais escolher entre saúde e prazer, ele quer os dois. E Maceió já tem ótimos exemplos de casas que entenderam e acompanharam esse movimento.

No TIMO, essa proposta aparece em pratos com opções equilibradas e em uma linha de pizzas verdadeiramente sem lactose. Em parceria com a Simbiá, empresa alagoana de laticínios veganos, a casa utiliza queijos à base de castanha de caju. Com fermentação natural, as pizzas mantêm o sabor e a versatilidade, mostrando que adaptar um prato não significa abrir mão do que o torna especial.

A experiência também se estende para além do cardápio, com aula de pizza conduzida pelo chef da casa e acompanhada de harmonização de vinhos. A iniciativa aproxima o público dos processos da cozinha e transforma o encontro em uma oportunidade de aprender, experimentar e conhecer novos sabores.

No GARUVA, as aulas de risotos nos convidam a sair do óbvio, desacelerar, descobrir novos sabores, testar combinações e despertar a criatividade na cozinha. Uma amiga que participou da última turma me contou o quanto a atividade a aproximou da comida de uma maneira descontraída e prazerosa. Entre o preparo, bons vinhos e boas risadas, ela percebeu que a experiência não terminava ali. A criatividade despertada durante a aula também chegou à rotina, dando origem a novas preparações.

E talvez esse seja um dos pontos mais interessantes. Nem sempre precisamos buscar na comida a solução para aquilo que sentimos. Podemos encontrar prazer também no que acontece ao redor dela e nas memórias que construímos à mesa.

Para mim, isso também é ser saudável. Nunca tivemos tantas ferramentas para cuidar de nós mesmos, mas o desafio é usá-las sem transformar o cuidado em regras, métricas e metas de performance. É nesse equilíbrio que encontro sentido no wellness, usando a tecnologia sem perder a autopercepção e cuidando da saúde sem esquecer de viver o caminho. Porque, se você ainda não percebeu, a vida está voando, né?

É exatamente desse wellness que eu quero fazer parte.

Veja Mais

Rolar para cima